O SUJEITO E SEUS INTERDITOS: A MARCHA DAS VADIAS

Projetos Written by  Terça, 02 Fevereiro 2016 00:00 font size decrease font size increase font size
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A proposta deste trabalho é investigar (refletir) a forma como “sujeitos” (ORLANDI, 2012), tidos como marginalizados ou marginais aos “discursos” (idem) circulantes na sociedade, se constituem e são constituídos a partir do “sentido” (PÊCHEUX,1999) de sua resistência às posições de consenso/estabilizadas, discurso do senso comum. Nesse sentido, os sujeitos participantes e inscritos, que na sua corporeidade ou discursivamente da “Marcha das Vadias” se apresentam como constitutivos/constituintes de um espaço material e simbólico de resistência discursiva a uma posição sujeito de consenso para a “discursividade” (ORLANDI, 2001) da mulher.

Nossa proposta pressupõe que as posições sujeito historicamente institucionalizadas são submetidas a constantes pressões que visam desestabiliza-las de um lado e ao mesmo tempo de outro no jogo das “tensões” (idem). Por outro lado, posições sujeito submetidas, no dizer de Orlandi (2012, p. 227) ao “processo de alienação”, resistem a esse processo. Se para Pêcheux (1999) era o “mau sujeito”, para Orlandi é o sujeito da resistência. 

 

A marcha das vadias é um movimento surgido no Canadá, tendo sua origem num protesto ocorrido em abril de 2011, quando, após uma série de abusos sexuais ocorridos na Universidade de Toronto, em seu discurso o policial Michael Sanguinetti declarou que os ataques diminuiriam caso as mulheres não se vestissem como vadias (sluts) ou seja, trajes considerados como sensuais. A reação discursiva ou contra discursiva a do policial da comunidade foi a realização da primeira marcha das vadias (sluts walk), que passou a combater o discurso de que as mulheres eram responsáveis pelos ataques sexuais que sofriam. O sentido das manifestações correu o mundo e a primeira organizada no Brasil, ocorreu no ano de 2011 na cidade de São Paulo, SP, quando cerca de trezentas pessoas se reuniram para protestar contra o discurso de que a violência sexual tem como fundo provocativo o comportamento das próprias vítimas, sendo que a mais recente, ocorrida em julho de 2013 em Brasília-DF reuniu cerca de três mil manifestantes. Durante a marcha, as mulheres vestem-se de maneira cotidiana e também com roupas consideradas “provocativas” – transparências, roupas íntimas, roupas curtas.

A partir dessas breves considerações, é importante ressaltar que em trabalhos anteriores, discutimos a questão da posição sujeito pedófilo a partir de condições materiais de produção de discursos diversos. Ao abordarmos esse sujeito, buscamos entender inicialmente (TAFARELLO, 2007) como o mesmo era significado em discursos presentes em dicionários, na mídia, no discurso jurídico, médico-psiquiátrico e nos discursos de associações de pedófilos como a North American Men Boy Lovers Association (NAMBLA). Percebemos à época que esse sujeito, cuja fala (dizer) é interdita em função de suas práticas não discursivas é alvo de diversos discursos “identitários” (RODRIGUES, 2007) que se diferenciam em função da “formação discursiva” (ORLANDI, 2001) em que eram enunciados, locando-o ora com sentido de criminoso, ora como doente e em oposição a um discurso de reivindicação de uma identidade positiva em função das práticas desse sujeito. Todavia, os discursos desse sujeito pedófilo na forma como reivindicado pela NAMBLA não era legitimado pelo restante da sociedade, permanecendo como interdito e tendo negada sua livre circulação.

Mais tarde, numa reflexão mais apurada acerca desse sujeito pedófilo representado por associações, (TAFARELLO, 2012) procuramos compreender como ele se inseria (ou não) na ordem dos discursos passíveis de circulação e de que formas ele buscaria para entrar e permanecer nessa mesma ordem. Para tanto analisamos os discursos da International Pedophile and Child Emancipation (IPCE), organização ativista pedófila que se apresenta com viés e sentido acadêmico e cujo objetivo declarado é o de promover estudos científicos que buscam dar legitimidade à prática do pedófilo e da Newgon, organização ativista pedófila que desenvolve atividades de divulgação de postulados e ativismo “prático” como a distribuição de flyers, folders, cartazes, etc.

Naquele momento observamos que o discurso do ativismo pedófilo ao se apropriar de modelos de sentidos de resistência e afirmação de outros grupos ativistas, em especial o dos homossexuais, esbarra num dilema: enquanto os homossexuais podem dar visibilidade, mesmo que em alguma medida restrita, aos seus discursos, práticas e reivindicações, aos pedófilos essa possibilidade não era/é permitida. Sua prática discursiva provocava/provoca na sociedade toda espécie de interditos, sejam eles discursivos ou até mesmo físicos. Não é possível ao pedófilo defender abertamente sua prática sem incorrer em perigos que incluem até riscos à sua integridade física. Mesmo ao adotar modelos de circulação discursiva que funcionam a outros grupos, (no caso o do ativismo) o ativismo pedófilo não consegue fazer com que seus discursos circulem livremente pela sociedade, não possuem as condições de produção necessárias.

Para Pêcheux (1997a, p. 82), o discurso é dado como “efeito de sentidos” (idem) no bojo das relações sociais entre sujeitos em uma dada enunciação. Entretanto, o sentido não é tido para a Análise do Discurso como fechado, ao contrário ele é marcado pela “incompletude do discurso e do sujeito”. Para Orlandi (2005, p. 19), “a incompletude é característica de todo processo de significação. A relação pensamento / linguagem / mundo permanece aberta, sendo a interpretação função dessa incompletude ...”

Segundo Orlandi (1999), os elementos que entram em jogo nas condições de produção do discurso são os sujeitos, a situação e a memória, no que tange a forma como ela faz valer as condições de produção. Orlandi concebe que ainda que essas condições funcionam de acordo com certos fatores: a) relação de sentidos – “um discurso aponta para outros que o sustentam, assim como para dizeres futuros” (idem, p. 39), b) o mecanismo de antecipação, que dirige o processo de argumentação visando seus efeitos sobre o locutor e c) a relação de forças: “O lugar a partir do qual o sujeito fala é constitutivo do que ele diz” (39). As relações de força são sustentadas pelo poder dos diferentes lugares. Esses mecanismos repousam nas “formações imaginárias” (PÊCHEUX, 1999) que determinam as posições ocupadas pelo sujeito no discurso – entendidos não como sujeitos físicos em sua corporeidade, mas suas imagens que resultam de projeções marcadas pelo mecanismo de antecipação. Para Orlandi (1999, p 40), “o que significa no discurso são essas posições. E elas significam em relação ao contexto sócio histórico e à memória (o saber discursivo, o já dito)”.

Ou seja, para que o discurso ativismo pedófilo pudesse fazer com que seus discursos (sentidos) circulassem deveriam ocupar uma posição sujeito dentro de formações imaginárias que os representassem de forma positiva em relação à memória negativa: ora como doentes ora como criminosos ou mesmo como pervertidos no discurso do senso comum. Mesmo considerando as diferenças entre as diversas posições sujeito entendemos que o sujeito ativista pedófilo faz parte de uma categoria de sujeitos cuja circulação dos discursos é, em alguma medida, interdita ou no mínimo, restrita, tratada como uma circulação fora do “efeito de normalidade” que os diversos discursos circulantes possuem.

Orlandi (2012, p. 213-14) ao discutir uma teoria discursiva da resistência do sujeito parte da afirmação de que “(...) nos processos discursivos há sempre “furos”, falhas, incompletudes, apagamentos e isso nos serve de indícios/vestígios para compreender os pontos de resistência.” Esses pontos de resistência, observados pela autora a partir de estudos sobre os falcões – garotos do tráfico, são tratados como

(...) resistência/deslocamento” do sujeito em seus processos de individu(aliz)ação face à formação do consenso em uma sociedade como a nossa em que a noção de delinquência está definida pelo modo da segregação – os que devem ser excluídos – na base do preconceito – e que quando a pensamos de outro modo, podemos compreendê-la enquanto forma de resistência ou pelo menos deslocamento e então seu sentido é outro.” (ORLANDI, 2012, p. 227)

Essa noção (sentido) de “resistência”, ainda segundo Orlandi (idem, ib.) é tratada pelo discurso oficial para situações idealizadas, caracterizadas pelo heroísmo. Essa seria, segundo a autora uma forma da “ideologia funcionar na relação dos “alienados” e as relações de poder”. Dessa forma, a pergunta fundamental feita por Orlandi (idem, ib) é: “(...) como aqueles submetidos ao processo de alienação se subtraem, ou são subtraídos, pela falha, ao apagamento de seu eu social, e de alguma forma se objetivam em suas relações. Resistem?”

São essas as considerações iniciais que fazemos ao observar sujeitos que, a despeito dos processos de interdição / alienação a que são submetidos acabam por buscar a ressignificação de si e suas práticas ainda dentro dos processos de segregação a que são submetidos. Dessa forma, o objeto deste trabalho são os “indícios” (GINSBURG, 2001) discursivos de resistência do sujeito a partir das frases (enunciados) pintadas / inscritas nos corpos das manifestantes que participam da Marcha das Vadias anualmente em diversas cidades do Brasil.

É importante ressaltar que essas reflexões e proposta de pesquisa possuem uma estreita relação com as desenvolvida pelo Prof. Dr. Marlon L. Rodrigues no Grupo de Pesquisa, NEAD, pois ao propor uma análise sobre o discurso das “Marchas das Vadias” enquanto acontecimento discursivo, essa discursividade se insere em um quadro dos discursos considerações “polêmicos” no sentido de se inscreverem tensamente em espaços sociais marcados por “tensões” (ORLANDI, 2001), preconceitos, interdições, circulação regrada, sentidos que dizem respeito a “identidade” (RODRIGUES, 2007) reivindicada e/ou disputada.

Nesse sentido, as reflexões de Rodrigues (2011) iniciam com o estudo “Introdução ao Estudo da Ideologia que Sustenta o MST”. Nele o autor flagra a irrupção de um discurso que sofre pressão dos efeitos de sentidos do Estado para que se submeta a ordem das supostas normalidades e não se constitua enquanto uma posição sujeito que desafia o Estado.

Já em um outro trabalho, “MST: Discurso de Reforma Agrária pela Ocupação. Acontecimento Discurso”, Rodrigues (2007) aborda o discurso do MST enquanto acontecimento discurso, aquele que rompe para reivindicar um espaço de representação social e política não apenas perante o Estado, mas em diálogo com os movimentos sociais e políticos, o que garante a sua existência e circulação ainda que regrada na ordem do Estado.

Na esteira dos discursos marcados por efeitos tensos de sentidos, o autor em uma série de reflexões aborda a discursividade da/sobre a questão afrodescendente, em particular o discurso sobre as cotas para negros nas universidades públicas. Suas reflexões abordam a tensão de uma posição sujeito em um dado momento histórico que vem reivindicar seus sentidos e “direitos” enquanto política de reparação histórica e uma posição sujeito em relação a própria identidade (RODRIGUES, 2007, 2011b, 2013, 2009, 2010, 2012).

Assim, entre outros trabalhos, Rodrigues destaca não apenas a irrupção de discursos e sujeitos, mas o quanto os sujeitos e discursos precisam romper sentidos de restrição como preconceitos, estigmatização, posição de classe, afirmação e reafirmação da questão da identidade, nesse sentido, a “Marcha das Vadias” tanto quanto o MST quanto os afrodescendentes se inserem em um momento histórico de disputa de espaços sociais, de significação e ressignificação de identidades e de sujeitos.”

 

 

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